 Muito me surpreendi ao ler uma declaração do comandante do policiamento em Curitiba, no episódio dos jogos entre Paraná Clube x Cerâmica-RS e Atlético x Vilhena-RO, ambos marcados para a mesma noite e em horários próximos. Quando questionado se havia sido feito algum diálogo com as Organizadas, no intuito de coibir brigas em terminais, o Coronel disse que não havia mais diálogo com as organizadas e seus comandos, pois as tentativas anteriores não haviam dado certo. Fiquei totalmente sem entender o que havia acontecido uma vez que nossa relação com a Polícia era a melhor possível e não nos foi notificado nada que expressasse o contrário.
Fomos a TODAS as reuniões convocadas pelo comando da Polícia Militar e atendemos a TODAS as exigências impostas pelo mesmo. Estamos há anos frequentando reuniões com as lideranças de outras Torcidas Organizadas, lideranças de Comandos, autoridades em geral e reconhecimento de infratores em vídeos e fotos. Passamos ofícios detalhados do deslocamento de torcedores em TODOS os jogos, tanto em Curitiba como fora, para URBS, Polícia Militar e Ministério Público. Fomos a única Torcida do Paraná que forneceu TODOS os documentos que nos foram solicitados em investigação policial e dentro do prazo estipulado. Estamos atendendo a todas as imposições contidas no Termo de Ajuste de Conduta, elaborado pelo Ministério Público, mesmo enfrentando diversas dificuldades, principalmente a financeira, uma vez que os gastos ficarão em torno de 45 mil, incluindo o novo sistema de cadastro de sócios, carteirinha com chip, biometria, catracas, equipamentos e reformas em geral.
Será que isto é "não colaborar"? Será que isto é o "não deu certo"? A atual postura da Polícia em relação a nós era no mínimo muito estranha, mas na semana que antecedeu o Atletiba tudo fez mais sentido. A Secretaria de Segurança Pública do Paraná anunciou uma resolução em parceria com a Federação Paranaense de Futebol e com dirigentes de Clubes (?), que veta camisas e materiais de organizadas nos estádios do Paraná. Analisando apenas a resolução em si, com toda minha experiência, tenho certeza que será outra medida ridícula, como a proibição da venda de cerveja dentro do Estádio, e que não diminuirá em nada a violência no futebol, até porque bandeiras e faixas não agridem ninguém. Agora se formos um pouco mais a fundo, fica nítido que isso só serve para tirar o foco da opinião pública daquilo que realmente importa.
Primeiro: o anunciado apoio dos dirigentes dos Clubes não é totalmente verdade, uma prova disso foi a autorização dos materiais que estariam vetados, por parte da Diretoria do Atlético, no clássico de domingo. Vale lembrar que não ganhamos NADA do Clube, tampouco exigimos alguma coisa e nossa relação é apenas de respeito mútuo.
Segundo: nossa Federação Paranaense de Futebol é uma piada, sendo ridicularizada em todo o meio e no Brasil todo. Se não conseguem nem fazer um regulamento decente o que será que entendem de Torcida Organizada? Ao invés de se meter nesse assunto, deveriam se preocupar em não marcar jogos dos três Clubes da Capital no mesmo dia, colocando as três maiores torcidas nas ruas no mesmo horário e se tornando responsáveis pelo vandalismo na Cidade.
Terceiro: Será que a Secretaria de Segurança Pública do Paraná não tem mais com o que se preocupar, a começar pelo recente título que recebemos de "Capital mais violenta do Brasil"? Ou será que acabando com as Torcidas Organizadas, a violência, as mortes, o tráfico de drogas, a insegurança, a impunidade e os diversos problemas relacionados à segurança pública no Paraná irão acabar? Parece que novamente estão querendo "tapar o sol com a peneira".
Um fato muito engraçado sobre todos estes dados e estatísticas é que mal um Atletiba acaba e já é divulgado em toda a mídia que: "tantos" ônibus foram quebrados, "tantas" brigas foram registradas, "tantos" litros de pinga foram vendidos... Onde é que eles arrumam estes números? Como é tão fácil obter dados sobre este assunto, sendo que não são fornecidos índices de criminalidade em Curitiba e arredores. Segundo matéria divulgada recentemente, a Secretaria do Estado de Segurança Pública não divulga nenhum número desde setembro do ano passado e se recusa a repassar um levantamento sobre a criminalidade em Curitiba. A Polícia Militar, que também tem dados estatísticos, se nega a fornecer os números. Acredito que um cidadão de bem está muito mais interessado num mapeamento da criminalidade detalhado do que em saber quantos ônibus foram quebrados após um jogo, assim como uma pesquisa que diz que mais de 90% da população se sente insegura é muito mais relevante do que uma que diz que 90% dos frequentadores de Estádio temem as Organizadas.
Não estou dizendo que o vandalismo ao transporte público não é importante, apenas levantar duas questões. A primeira é que existem diversas prioridades a serem combatidas e outra é que a própria Polícia é a primeira a não cumprir o que foi combinado nas reuniões. Passamos ofícios detalhados sobre o problema nos terminais de Curitiba e Região Metropolitana e solicitamos escolta para todos os jogos, mas raramente o policiamento aparece. Quando a Polícia se faz presente, muitas vezes muda o trajeto sugerido, fazendo com que as torcidas rivais se encontrem. Em recente contato com a URBS, ficamos sabendo que a Polícia nem ao menos repassava estas informações a eles e começamos a passar ofícios diretamente para a URBS. Muitas vezes também nos foi repassado que não haveria contingente para atender a todas as regiões, mas para deslocar centenas de policiais nos arredores da Baixada tem?
Não quero de maneira nenhuma isentar a parcela de responsabilidade que temos, mas é necessário que todos tomem conhecimento do trabalho que realizamos e dos problemas que enfrentamos. Às vezes temos a impressão (pra não dizer a certeza) que estão fazendo de tudo para que o resultado final seja o confronto, as brigas, o vandalismo e a destruição. Manipulam a mídia e a população para responsabilizar as Organizadas por sua omissão e irresponsabilidade. Generalizam todas as Torcidas Organizadas e querem nos comparar até com "torcidas" de outros estados, estas sim, verdadeiras facções criminosas sem nenhuma organização. Ficamos reféns de alguns políticos falidos que em período pré eleitoral bolam planos e resoluções que não servem para nada, apenas para troca de votos.
Se todos conhecessem a estrutura e organização de nossa Torcida, saberiam de todo o trabalho que temos para preparar uma festa em um Atletiba e para atender a todos os torcedores que freqüentam nossa sede. Também saberiam de todas as medidas que tomamos para evitar confrontos em dia de jogos, como foi feito no último clássico. É muito fácil vir à público e falar que a violência e o vandalismo diminuiu no último jogo, ou seja, dar esmola com a mão dos outros. Todos têm mérito neste processo, inclusive as Torcidas Organizadas. Nos mobilizamos de todas as maneiras possíveis e impossíveis para evitar qualquer tipo de confusão no dia da partida. Diretores e colaboradores da Torcida dedicaram seu tempo integralmente e fizeram um trabalho quase como o de uma "babá" para buscar e escoltar os torcedores dos terminais até o Estádio e depois para levá-los embora com segurança. Fizemos um planejamento detalhado de horários e trajetos, tanto de nossa torcida como da adversária, em contato com a Torcida Organizada do Coritiba. Constatamos que o policiamento nos terminais foi quase nulo e nos poucos casos em que havia monitoramento, sobrou para a Guarda Municipal, que não está preparada para esta situação e muito menos tem essa função. Tivemos despesas com ônibus fretados e escolta em todas as regiões, a fim de evitar confrontos entre torcedores. Dentro do Estádio, integrantes de nossa Torcida deixaram de assistir o jogo e trabalharam para manter a paz nas divisas e para que as provocações fossem mínimas.
No próprio balanço das ocorrências registradas antes e depois do Atletiba fica evidente que o problema não é nos arredores do Estádio e sim nos terminais e bairros de Curitiba e Região Metropolitana. Foi muito válido os "cordões de policiais" espalhados nos arredores da Baixada e nós mesmos já havíamos solicitado este tipo de ação em pontos críticos próximos a nossa sede, mas em nada ajudou no combate as pessoas que não entram no jogo e ficam bebendo em frente ao Estádio. Na Praça do Atlético a mesma quantidade de torcedores que ali se instalam e ficam bebendo em todos os jogos, continuou a mesma, como vários veículos da imprensa publicaram. Quem sabe estes policiais, que estavam ali trabalhando para manter a ordem, seriam muito mais úteis em outras regiões da Cidade.
Sabemos que nem todos são "santos" e existem muitas pessoas ruins nas Torcidas Organizadas, mas não podemos generalizar de maneira nenhuma, pois isto ocorre em qualquer instituição grande. Porque um PM foi flagrado roubando um rádio de um carro, em pleno centro de Curitiba, não quer dizer que todos são ladrões e muito menos seria motivo para acabar com a Polícia. Não é porque um governador foi flagrado colocando dinheiro roubado na meia que iremos acabar com a política. Vamos nos concentrar em punir os verdadeiros bandidos e os verdadeiros culpados. Acabar com as Torcidas Organizadas não irá resolver o problema e só demonstra despreparo e falta de vontade. Será que o responsável pelo atropelamento e pela morte do João, no ano passado foi punido? Será que o torcedor do coxa que roubou e estava com bombas no terminal do Pinheirinho, neste Atletiba, não estará solto no próximo? Até que medidas eficazes sejam tomadas e os infratores sejam punidos, os problemas irão continuar, com ou sem Organizadas.
Por fim, gostaria de parabenizar todos que tiveram um pouco de boa vontade e trabalharam de alguma forma pela paz neste Atletiba. Desde a diretoria da URBS, que nos forneceu ônibus extra nos terminais (todos pagaram passagem); os policiais que trabalharam nos arredores da Baixada e foram muito educados com os torcedores; o Presidente Malucelli e toda Diretoria do Atlético, que priorizou a festa nas arquibancadas; a Guarda Municipal, que mesmo em pouco efetivo fez o possível para auxiliar nos terminais; até aquele torcedor, indiferente de qual time, que saiu de casa consciente, apenas com a vontade de torcer pelo time do coração.
Vamos acabar com as Organizadas? No dia em que isto trouxer Famílias para o Estádio, resolver todos os problemas de vandalismo ao patrimônio público, punir os verdadeiros culpados e, acima de tudo, acabar com a covardia gratuita no futebol, serei o primeiro a defender esta causa. Até lá, lutarei pelo direito de torcer... torcer consciente, torcer ORGANIZADO!!!
Fonte: Julio Cesar Sobota, o “Julião da Caveira” |